O Belenenses é um histórico do futebol português que nós temos de fazer regressar à ribalta (sic). Fomos conhecer Admar Hipólito, o novo Coordenador do Futebol Juvenil do Belenenses, hoje em dia de grande entrevista. A importância da formação para a viabilidade económica do Clube, o anúncio do relançamento de uma equipa "B" dos juvenis para a próxima época, enquanto que uma análoga para os séniores não deverá ser tão fácil, foram alguns dos temas abordados.

Esta entrevista data de 21 de Fevereiro. Pedimos-lhe uma apresentação: quem é Admar Hipólito e por onde andou até chegar primeiro, a Director Técnico, e agora, cumulativamente, a Coordenador do Futebol Juvenil do Belenenses?
No futebol já percorri praticamente todas as componentes, desde jogador a dirigente associativo. Nos últimos anos trabalhei no Atlético como Director Desportivo, sendo responsável por todo o futebol do Clube, desde as escolas até aos séniores.

Quais as funções de um Coordenador do Futebol Juvenil?
Um Coordenador não é mais do que um regulador e dinamizador de todo o processo de formação. Os objectivos principais, e que eu entendo serem de extrema importância, são os da excelência futebolística, social e cultural. Pretende-se a formação integral dos nossos jogadores, tanto como praticantes como futuros Homens do amanhã.

Ao cabo deste primeiro mês, quais diria serem os pontos fortes do Futebol Juvenil do Belenenses, que se impõem manter?
O Belenenses é um histórico do futebol português que temos de fazer regressar à ribalta dos grandes palcos, um lugar que é seu por direito próprio. Refiro-me não apenas à formação, como ao futebol profissional, onde se está a desenvolver um trabalho de grande mérito.

E quais os aspectos em que se poderia melhorar?
Todos aqueles abrangidos por um conjunto de ideias que pretendo implantar, e que são:

  • A formação tem de ser uma das soluções para a viabilidade económica do Belenenses, funcionando como uma fonte abastecedora de talentos para o futebol profissional.
  • Para tal, terá de ser guiada pelos mais rigorosos padrões de exigência, de forma a preparar os jovens jogadores para o mundo do futebol profissional.
  • Isso implica o desenvolvimento de um conjunto de valências, tais como um bom desenvolvimento motor, competitividade, pensamento bem organizado e estruturado, disciplina e perseverança. O jovem jogador tem de revelar carácter, inteligência específica de jogo, técnica evoluída e princípios de educação que lhe permitam comportar-se como ser social que é.
  • Deve ser introduzida uma cultura de vitória, e com isso não me refiro apenas ao resultado, mas sim mentalizar o jovem para ganhar cada treino, ganhar capacidade para jogar, ganhar vontade e espaço para jogar, ganhar cada duelo, ganhar cada situação de finalização, ganhar uma Equipa. Ganhar terá de ser sempre uma palavra que conste do seu vocabulário.
  • Há que sublinhar que o conceito de equipa é mais importante que o da individualidade.
  • Nunca esquecer que a formação escolar deverá ser conciliada com a actividade desportiva.
  • É preciso transmitir a mística do Clube.
  • Os treinadores têm de estar identificados com o projecto de formação.

Estas são algumas ideias. Para tudo funcionar, teremos de melhorar as infra-estruturas. As pessoas envolvidas deverão também partilhar o mesmo tipo de pensamento, regendo-se por normas de conduta em que os interesses do Clube estejam acima dos pessoais.

Um tema algo recorrente prende-se com o estado do relvado do campo nº 2, resultante em parte do mau tempo, e em parte pela sua elevada taxa de ocupação. Com os actuais recursos do Clube, vê alguma forma de minimizar esta situação?
Neste momento, o campo nº 2 está sujeito a obras de melhoramento e deverá ficar disponível no final do mês de Fevereiro. A sua gestão deverá ser bem executada, de forma a tirarmos o melhor aproveitamento dele.

A concretizar-se um novo espaço de treino para as equipas de rugby, mais a introdução de um piso sintético no "maracanazinho" e a devolução das Salésias ao Belenenses, considera que este aumento de recursos seria suficiente para proporcionar condições de trabalho que se possam classificar de ideais?
Só poderemos ser melhores com infra-estruturas condizentes.

Sobre a actual lei das transferências, diria constituir uma defesa na medida justa dos direitos de formação dos clubes, ou discorda?
Se me questiona sobre a libertação dos jovens no final da época sem carta de desvinculação, estou de acordo. Quanto à compensação pela formação quando eles assinam o primeiro contrato profissional antes dos 23 anos, aí também estou de acordo. Estas são mais duas razões para nos motivar a trabalhar melhor na formação.

Temos ouvido queixas, entre juvenis e iniciados, sobre a redução a duas do número de equipas com apuramento automático para a Segunda Fase do Campeonato. Note-se que, em ambos os casos, acaba o Belenenses por integrar uma série onde militam Benfica e Sporting. Quer comentar?
O mais importante é formarmos equipas e jogadores competitivos, de qualidade e com mentalidade ganhadora, capazes de lutar em todas as frentes pela melhor prestação e resultado, independentemente de defrontarem Benfica ou Sporting. Se forem criadas as condições certas, seremos capazes de lutar de igual para igual.

O trabalho na formação tem de ser avaliado no final da época, em termos do maior ou menor aproveitamento de jovens atletas para o futebol profissional. Veja-se o que acontece já na presente em que, com uma nova política, da Administração e de Mitchell van der Gaag, conseguimos colocar cinco jogadores nos treinos da Selecção de Sub-20. Além disso, temos um internacional holandês, também Sub-20, dois Sub-19 que treinam desde o início com os séniores e um Sub-18 que foi agora chamado à Selecção Nacional e está já inscrito na Liga Profissional. Há também o caso de um Sub-20, saído dos juniores, que treinou com os séniores até Dezembro, e quatro jogadores saídos na época passada dos juniores e que têm sido observados.
Com condições de trabalho, a nossa formação dará muitos mais jogadores. Esse é o objectivo. Com esta política, tenho a certeza de que obteremos bons resultados.

Considera possível recuperar já para a próxima época a equipa "B" de juvenis?
Sim. Está assente que haverá uma equipa de juvenis "B" para a próxima época.

E quanto à equipa "B" de juniores, é uma aposta para manter?
Penso que não se justifica.

Uma vez terminada a formação, o Departamento continua a apoiar os jovens que pretendam seguir uma carreira futebolística?
Dentro das nossas possibilidades, também queremos apoiar os jovens que saem da formação.

Ainda no enquadramento do ponto anterior, considera preferível a aposta numa equipa "B" de séniores, ou antes um maior estreitamento de relações com outros clubes de escalões inferiores com os quais haja afinidades?
Não penso que seja fácil criarmos uma "B", porque existe um protocolo entre a Liga Profissional e os clubes com equipas "B", nos termos do qual o número dessas equipas não poderá ser aumentado. Isto, assumindo que subiremos de divisão, como todos queremos. Quanto à possibilidade de participar numa prova distrital, aí entraríamos pela última divisão, o que não seria competitivo nem traria benefícios para os jovens.

Tem algo mais que gostasse de acrescentar, à guisa de conclusão?
O caminho é difícil e árduo, de modo que precisamos de apoio e colaboração. Para que o projecto seja uma realidade teremos de remar todos no mesmo sentido.